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ECONOMIA

A falsa renda extra: brasileiros recorrem a bets para pagar contas e endividamento dispara

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As apostas online deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a fazer parte do orçamento de milhões de brasileiros. Em meio ao aperto financeiro, inflação alta e crescimento da inadimplência, parcela da população tem visto nas plataformas de apostas — chamadas de “bets” — uma solução rápida para complementar a renda e quitar despesas mensais. O que começa como tentativa de equilibrar as contas, no entanto, transforma-se em armadilha de endividamento e risco à saúde financeira e emocional.

Dados mostram que o uso das bets como estratégia de sobrevivência econômica é cada vez mais frequente. Em pesquisa da Fecomércio-SP, realizada com 600 apostadores em São Paulo, 35% dos entrevistados em maio de 2026 declararam usar as plataformas para aumentar a renda doméstica. O número representa um aumento de 10 pontos percentuais em comparação com 2024, ano em que as regras de regulamentação do setor entraram em vigor e apenas 25% dos jogadores adotavam esse objetivo.

A busca por ganhos rápidos é ainda maior entre as famílias de menor poder aquisitivo. Entre quem recebe até dois salários mínimos (R$ 3.242), 40% apostam para fechar o orçamento. A proporção cai para 30% na faixa de dois a cinco salários mínimos e para 29% entre cinco e dez salários, mas mantém-se em níveis elevados em todas as classes.

Estudos qualitativos da empresa Hibou confirmam o movimento. Segundo Lígia Mello, sócia e CEO da instituição, o perfil mudou: “Antes, um em cada cinco apostadores recorria às bets para resolver contas; hoje, são dois em cada cinco. Muitas vezes, a pessoa tem R$ 200 e uma conta de R$ 350 para pagar — separa R$ 50 para apostar, acreditando que vai ganhar e conseguir quitar o débito”.

A economista Kelly Carvalho, assessora econômica da Fecomércio-SP, alerta para a ilusão: “É uma falsa renda extra. As plataformas operam com algoritmos que não permitem ganhos consistentes; a regra estatística é a perda. Quem tenta resolver dívidas apostando acaba perdendo mais dinheiro e se afundando ainda mais”.

O impacto no endividamento é visível. Levantamento da CNC aponta que o gasto mensal com bets no Brasil já ultrapassa R$ 30 bilhões. Esse valor, que poderia ser destinado a alimentação, moradia, saúde ou pagamento de dívidas, deixa de circular na economia real. A entidade estima que o uso excessivo de apostas levou 268 mil famílias à inadimplência severa — com contas atrasadas há mais de 90 dias — e ampliou o tempo médio de endividamento.

“O recurso que deveria manter a família ou reduzir débitos vai para as plataformas, sem gerar patrimônio nem consumo de bens essenciais. O resultado é uma dívida mais difícil de ser resolvida”, explica Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.

A ligação entre apostas e inadimplência ficou explícita no programa Desenrola 2.0, lançado pelo governo federal. Uma das regras determina que quem aderir à renegociação de dívidas fica impedido de apostar ou abrir cadastros em sites de jogos por 12 meses.

Outro dado que preocupa é o aumento do valor investido. Em 2024, 76% dos apostadores gastavam até R$ 200 por mês; em 2026, esse percentual chega a 82%. A parcela de quem gasta mais de R$ 500 mensais também subiu, de 8% para 10%.

A facilidade de acesso acelera o problema: as bets são divulgadas amplamente nas redes sociais e aceitam pagamentos por Pix, mesmo sendo proibido o uso de cartão de crédito. Segundo a pesquisa, se não aplicassem esse dinheiro em apostas, 13% dos usuários comprariam alimentos, 14% pagariam contas, 7% comprariam roupas e 26% guardariam para o futuro.

Em São Paulo, por exemplo, o setor já drena valores expressivos: em 2025, as apostas retiraram R$ 20,7 bilhões da economia da capital — o equivalente a 4% de todo o faturamento do varejo, 13,5% da receita dos supermercados e 44% do faturamento de farmácias e perfumarias.

O cenário mostra que o que parecia uma oportunidade de ganho rápido se transformou em risco social e econômico, aprofundando desigualdades e dificultando a recuperação financeira de quem mais precisa.

  • *Com informações do Blog do Gustavo Negreiros / Foto: Reprodução

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