POLÍTICA
A primeira derrota de Allyson depois de soltar a mão de Kelps
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5 horas atrásem
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Gazeta do Oeste
Nos bastidores da política potiguar, aliados e amigos do ex-deputado lembram que a trajetória de Allyson Bezerra começou pelas mãos de Kelps Lima — e que a primeira derrota veio justamente depois do rompimento político entre os dois
A ressaca da eleição para o Governo do Rio Grande do Norte começa a produzir, além das análises sobre números e estratégias, uma espécie de retrospectiva sobre a trajetória política de Allyson Bezerra. E, entre os comentários que circulam nos bastidores, um detalhe tem chamado atenção: a primeira derrota eleitoral de Allyson aconteceu depois que ele se afastou politicamente de Kelps Lima, o aliado que ajudou a colocá-lo no caminho da política.
A história dos dois começou ainda em 2017, quando Kelps Lima presidia o Solidariedade no Rio Grande do Norte. Foi ele quem abriu as portas da legenda para um jovem servidor da Ufersa, até então sem experiência em eleições, e o incentivou a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.
Allyson entrou no Solidariedade e, contrariando previsões de que teria dificuldades para alcançar uma votação expressiva, terminou eleito deputado estadual em 2018, com mais de 20 mil votos. Em entrevistas posteriores, o próprio Allyson reconheceu a importância daquele momento e relatou que Kelps lhe garantiu espaço para construir sua candidatura dentro do partido.
A parceria não terminou nas urnas de 2018.
Kelps esteve ao lado de Allyson na construção do projeto que o levou à Prefeitura de Mossoró em 2020. Naquele processo, o Solidariedade teve papel decisivo na estruturação da candidatura, inclusive com recursos destinados à campanha. Registros da prestação de contas mostram que o diretório estadual do partido destinou R$ 160 mil à campanha de Allyson, além de outros R$ 50 mil do diretório nacional.
Eleito prefeito, Allyson consolidou sua liderança em Mossoró e, quatro anos depois, foi reeleito. Durante esse período, Kelps permaneceu como uma das figuras importantes do grupo político que ajudou a construir a ascensão do jovem político mossoroense.
A relação chegou a um novo capítulo em 2026, quando Kelps deixou o Solidariedade e ingressou no União Brasil justamente para disputar uma vaga de deputado federal dentro do mesmo projeto político que tinha Allyson como candidato ao Governo do Estado. Naquele momento, a proximidade entre os dois ainda era pública.
Em junho, inclusive, Kelps chegou a declarar que a candidatura de Allyson era mais importante do que a própria candidatura dele e que faria os ajustes necessários para preservar o projeto do amigo.
Mas a aliança começou a ruir.
Segundo relatos publicados à época e declarações do próprio Kelps, havia compromissos políticos para viabilizar sua candidatura à Câmara dos Deputados. Entre eles, apoios de prefeitos e uma posição mais clara de Allyson na apresentação de Kelps como um dos principais representantes de Mossoró na disputa federal. Esses compromissos, segundo Kelps, não foram cumpridos.
O episódio terminou com Kelps retirando sua pré-candidatura a deputado federal em julho. Em entrevista, ele afirmou que houve quebra de compromissos e relatou que, em uma reunião com lideranças da federação, teria recebido a informação de que os acordos políticos anteriormente estabelecidos não seriam cumpridos.
A partir dali, a relação entre os dois, que durante anos foi apresentada como uma parceria política de mão dupla, deixou de ser a mesma.
A eleição que mudou a narrativa
Allyson entrou na disputa pelo Governo do Estado como favorito em boa parte do imaginário político potiguar e terminou o primeiro turno na liderança, com 733.809 votos, equivalentes a 36,94% dos votos válidos. Cadu Xavier ficou muito próximo, com 718.300 votos, ou 36,16%.
No segundo turno, porém, veio a virada.
Cadu Xavier terminou eleito governador com 50,75% dos votos, contra 49,25% de Allyson. Foram 1.073.024 votos para Cadu e 1.040.399 para Allyson, uma diferença de pouco mais de 32 mil votos.
Foi a primeira derrota eleitoral de Allyson Bezerra desde sua estreia nas urnas, em 2018.
E é justamente aí que a memória política dos aliados de Kelps entra em cena.
Nos bastidores, amigos e pessoas próximas ao ex-deputado têm lembrado que a trajetória eleitoral de Allyson foi construída em grande parte ao lado de Kelps: primeiro na eleição para deputado estadual, depois na conquista da Prefeitura de Mossoró e, posteriormente, na consolidação do projeto político que transformou o jovem político em uma das principais lideranças do Estado.
Agora, dizem esses interlocutores, a primeira derrota chegou depois que Allyson e Kelps deixaram de caminhar juntos.
Coincidência eleitoral ou lição política?
É claro que não se pode atribuir a derrota de Allyson simplesmente à ausência de Kelps. Eleição majoritária envolve inúmeros fatores: alianças, rejeição, conjuntura nacional, estrutura partidária, campanha, segundo turno, transferência de votos e capacidade de mobilização.
Mas política também é feita de símbolos.
E o simbolismo dessa história é forte.
O político que ajudou a descobrir Allyson no Solidariedade acabou se afastando do projeto justamente no ano em que Allyson buscava dar o maior salto de sua carreira.
Kelps não esteve no palanque de Allyson até o final da mesma forma que esteve nos momentos anteriores. E, depois da derrota, aqueles que acompanharam a trajetória dos dois passaram a olhar para a sequência dos acontecimentos e perguntar se o rompimento representou apenas uma mudança de alianças ou se também significou a perda de uma peça importante da engrenagem política que levou Allyson ao topo.
A política, naturalmente, não costuma oferecer respostas simples.
Mas oferece coincidências que alimentam conversas.
E esta, para os aliados de Kelps, ganhou um significado especial: Allyson venceu todas as eleições enquanto tinha Kelps ao lado. A primeira vez que perdeu foi justamente depois que os dois deixaram de caminhar juntos.
Talvez seja apenas uma coincidência.
Talvez seja uma das muitas lições que a eleição de 2026 deixou para a política potiguar.
O fato é que, no pós-eleição, a velha parceria voltou a ser lembrada — e, em política, quando um nome começa a aparecer novamente nas conversas de bastidores, é sinal de que a história ainda pode não ter terminado.
Foto: Reprodução
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